O que é um guionista?

Quem sou eu? Bem, quando me perguntam o que faço, eu respondo: “guionista”. Pausa. Eu sei o que vem a seguir.
A expressão do meu interlocutor passa por um estado de mutação rápido, variando entre o espanto e o desconhecimento, acabando inevitavelmente na pena ilustrada com um sorriso forçado. Todos fazem o mesmo. Todos. Bem, excepto a Isabel Angelino, cujas expressões intrigada, eufórica e chiça-que-este-cocó-está-a-custar-a-sair são exactamente a mesma.

Quem sou
Um guionista também precisa de pausas.

O que é um guionista?
Resumidamente, é um tipo que escreve guiões para viver. Concedo que a vida não é tão fácil quanto a vida de um ex-político, mas ainda assim consegue-se comer quase todos os dias. Sim, é duro, mas pelo menos não somos constituídos arguidos. Bem, depende do que escreveres.

Ok. Confesso que, no parágrafo anterior, combinei um encontro com a verdade e nunca apareci. Um pouco como o Estragon e o Vladimir à espera do sacana do Godot, ou eu à espera do talento. No parágrafo anterior, usei um truque muito comum no humor, chamado auto-depreciativo. Uma táctica preventiva que nós usamos imediatamente antes de ofender alguém com uma punch gratuita. Na verdade, eu alimento-me bem e tenho a mesma disciplina da Joana Vasconcelos: como várias vezes ao dia. A única diferença é que não ingiro um javali a cada duas horas. E cá está a ofensa.

A minha vida laboral começou em 1989 tinha eu 15 anos, e, desde logo, muito ligada às letras. Na minha primeira profissão, trabalhava tanto tanto com letras… que chegava a casa com elas impressas nas minhas mãos enegrecidas de tinta. Se estão indecisos entre jornalista, ardina e vendedor de castanhas… é a do meio. Passei dois anos no Bairro alto a distribuir vespertinos, e o dinheiro recebido com ‘A Capital’, o ‘Diário Popular’ e o ‘Diário de Lisboa’ (todos jornais defuntos, mas não por minha culpa), gastava todo em roupa da única Zara do país e no clube de aluguer de videojogos. Dinheiro mal gasto, vim a saber. A Zara já tinha a qualidade que se veio a confirmar, e mais tarde descobrimos uma forma de copiar os jogos do imediata e obviamente falido clube de aluguer de videojogos.

As letras obrigavam-me a trabalhar no duro. Lembro-me do dia em passei a mão na testa para enxugar o suor, e fiquei com a famosa manchete de um ignóbil primeiro-ministro “deixe-me trabalhar” impressa na testa. Quando cheguei a casa, e tendo sido educado com os nobres valores soviéticos, levei um banho intensivo de sabão Latvija e enfiaram-me no gulag durante dois dias. Como devem calcular, para um puto de 15 anos, ir para o gulag significava não poder jogar ZX Spectrum.

Um humorista que segue pela vida da mesma forma como um idoso segue numa auto-estrada: em contramão.

Só muito, muito mais tarde – e após um frutuoso insucesso profissional – decido que poderei fazer a vida a escrever humor. Um decisão tão acertada quanto a de servir à Joana Vasconcelos apenas meio javali ao pequeno almoço, sem ter previamente retirado do seu alcance as pesadas frigideiras anti-aderentes. Na opção menos dolorosa, ela manda-nos com aquilo à tola, e na mais dolorosa ela pega naquilo e faz uma escultura.

Continuando. Comecei na rádio com a fabulosa participação no programa “Cómicos de Garagem” apresentado pelo Rui Unas na Antena 3. Algo que correu tão bem quanto uma intervenção do saudoso ministro Álvaro no parlamento. Ou uma praga de gafanhotos, tanto faz.

Pedi asilo na imprensa escrita, e fui acolhido no jornal satírico O Indesmentível. Aqui correu um bocadinho melhor que uma intervenção do ministro Álvaro no parlamento, mas não chegou ao nível de um Manuel Pinho.

Passei para a televisão, onde trabalhei na SIC Radical no programa Última Ceia com Rui Unas, na rubrica “O Indesmentível” e Anti-Social. Todos eles entretanto defuntos mas, quero acreditar, não por minha causa. Sou um tipo de copo meio-cheio.

Bla, bla, bla… E “Isto é Matemática”! Tcha-ran! Sim, algo neste programa correu demasiadamente bem para um projecto onde estou incluído. Onze temporadas. Uma nomeação para os Globos de Ouro, duas nomeações da Sociedade Portuguesa de Autores, e dois prémios – um deles internacional. É prestígio, mas não é meu. A história da minha vida. E da vida do Duarte Pio.

Bem, estou no ir. Isto continua quando tiver pachorra para mais. Sendo optimista… até breve.

Aproveito para informar que pedaços de comédia proferidas enquanto humorista, incluindo menções jocosas – e barra ou – desagradáveis, atiradas a personalidades vivas, mortas, ou até mesmo ao Cavaco Silva, deverão ser interpretadas como a mais pura e cândida das sátiras. Podendo até não ser uma ideia partilhada por mim próprio, quer enquanto pessoa, quer como besta quadrada.

Já agora… Nenhum animal ficou ferido durante a fabricação deste site, e a morte por atropelamento do gato do vizinho não pode de modo algum ser imputada a este vosso amigo que vos escreve. E não pode, porque já lavei as provas e enterrei o cadáver. Obrigado pela inspiração, casal McCann.

Adeus.